Christer Holmlund, do OAJ - Finlândia:
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Christer Holmlund, do OAJ - Finlândia: "Para nós, a greve não é solução"

Christer Holmlund, Diretor de Relações Internacionais do OAJ (Finlândia), foi o quarto e último convidado do ciclo de webinários com dirigentes sindicais da Europa "Sindicatos europeus respondem aos desafios da qualidade na educação", organizado pela FNE e pelo Canal4 da AFIET, que contou com moderação de Alexandre Dias (FNE/SPZN).

Professor durante 12 anos, Christer é dirigente do OAJ desde maio de 2020, seu Diretor de Relações Internacionais e também Secretário-Geral da Associação de Professores Nórdicos. O OAJ é a única organização sindical finlandesa que protege os interesses dos profissionais do setor de educação, formação e pesquisa, desde a educação infantil até ao ensino superior e educação e formação de adultos.

Numa breve apresentação histórica sobre o seu sindicato, Christer deixou bem claro que a maior preocupação do OAJ é a proteção dos interesses dos seus 116.545 associados. Um número muito significativo, pois nove em cada dez professores na Finlândia são sindicalizados do OAJ.

Pertencer ao OAJ é muito importante para os professores finlandeses, que consideram que o seu impacto é muito maior quando estão juntos e unidos. Assim sendo, os objetivos e os interesses dos docentes em cada situação específica são definidos pelos membros do sindicato. A missão de todos é encontrar um terreno comum e um compromisso. É desta forma que eles acham que podem mudar o que precisa de ser mudado.

O OAJ divide-se em oito departamentos internos que abrangem todos os patamares de docentes, incluindo os professores de língua sueca, que representam 6% da população finlandesa que fala sueco. Entre os oito departamentos, Christer destaca a presença de uma associação para estudantes, com mais de sete mil membros, algo que permite manter uma ligação muito importante entre os docentes mais novos e os docentes mais antigos.

Tudo via negociação

"Queremos que a Finlândia seja considerada a melhor do mundo em termos de educação", salientou Christer ao falar no âmbito de uma estratégia que a OAJ definiu há dois anos e que engloba novas visões de futuro, demonstrações de vantagens em ser membro, soluções para novos desafios e abertura à opinião de todos, algo que "valorizamos muito, pois gostamos de ouvir toda a gente e aproveitar o máximo de cada solicitação".

A certa altura Christer lançou para a mesa um dado curioso, que levantou, posteriormente, a curiosidade de alguns participantes: 1206 sócios do OAJ são oriundos de 88 países diferentes: “Todos estes professores estrangeiros trabalham tal e qual como os finlandeses. Não fazem nada de diferente".

Ao contrário do que acontece em Portugal, a profissão docente é muito popular e muito valorizada na Finlândia. Muitos jovens estudantes desejam e sonham vir a ser professores. Mas só os alunos com melhores resultados o conseguem. Christer sublinha que “temos poucas escolas privadas, as autarquias gerem as escolas e existe muita confiança e plena autonomia". O facto de o OAJ ser um sindicato único faz com que o debate seja feito internamente, sendo que os salários e horários de trabalho são as únicas matérias tratadas em sede de negociação coletiva.

Foram muitas as vitórias sociais alcançadas pelo OAJ até agora, desde a sua fundação em 1973, com destaque para a garantia de salário nas férias, a existência de aconselhamento legal, a criação de supervisores para negociar localmente, reforçando-se a ideia de que "existe um bom diálogo social, muito produtivo com os governos. Obviamente que nem sempre fazem o que dizemos, mas acima de tudo valorizam as nossas reivindicações e querem ouvir sempre a nossa voz".

Mas nem de só de coisas positivas vive o sistema educativo finlandês. Também há problemas com o aumento da burocracia e a falta de recursos disponíveis nas escolas, algo que "estamos a tentar melhorar negociando com o governo". Membro do Comité Sindical Europeu da Educação (CSEE) e da IE – tal como a FNE -, o OAJ procura envolver os jovens nas suas ações, ouvindo-os e dando um papel de destaque às suas ideias para o futuro da educação daquele país nórdico.

A pandemia da COVID-19 também tomou de assalto o sistema educativo finlandês, que se encontra, segundo Christer "em recuperação desde a primavera”. Foram tomadas várias decisões sobre o ensino a distância a nível regional e pedimos ao governo mais recursos. Conseguimos no outono bolsas de apoio à pandemia e financiamentos na ordem dos 150 milhões de euros. Já sobre a vacinação "temos lutado para que os professores sejam vacinados após os grupos de risco, mas essa batalha está por vencer".

No período final do webinário, o moderador Alexandre Dias lançou algumas perguntas dos participantes, tendo Christer salientado mais uma vez os benefícios de serem um sindicato único: “Existem divergências, claro, mas tentamos sempre buscar soluções convergentes”. Sobre a elevada valorização da profissão docente, que contrasta com a situação portuguesa, o Diretor de Relações Internacionais do OAJ referiu que “é quase uma questão de tradição aqui. Não é pelos salários, é pela profissão em si”.

A realidade paralela com o nosso contexto educativo viria logo de seguida: “Na Finlândia, não fazemos greves. A maior de sempre foi em 1984. E há uns anos atrás tivemos uma espécie de greve. Aqui alcançamos tudo pela negociação. A greve não ajuda nada. Para nós não é solução. A negociação sim. É ela que nos leva a alcançar os nossos objetivos”.

O OAJ e os empregadores finlandeses foram convidados da FNE na Mesa Redonda do Projeto III do Diálogo Social Europeu da Educação do CSEE, que decorreu em 8 de maio de 2017, no Ateneu Comercial do Porto. Desde 2019 até hoje, o OAJ e a FNE representam o CSEE no “Projeto de Aprendizagem ao Longo da Vida para Todos: Parceiros Sociais na Educação, na promoção de um Ensino Profissional de qualidade e inclusivo”.  

Reveja aqui a intervenção de Christer Holmlund


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