António Nóvoa no Webinar da FNE/CANAL4: “Temos de reconquistar o lugar criativo que era a escola”
Acontece (+)

António Nóvoa no Webinar da FNE/CANAL4: “Temos de reconquistar o lugar criativo que era a escola”

"E agora, professores?". A regra diz que dificilmente se começa um texto com uma questão, mas neste caso o tema do webinar organizado pela FNE/CANAL4, no âmbito das comemorações do Dia Mundial do Professor, foi um tiro certeiro na procura de pistas para a reinvenção do futuro da educação.

Mas nem só de futuro se falou neste webinar em que o Professor Doutor António Nóvoa foi o orador convidado. O presente e as consequências da pandemia de COVID-19 na educação foram outro ponto na conversa moderada por João Dias da Silva, Secretário-Geral da FNE, e Álvaro Almeida dos Santos, Presidente da Assembleia Geral da ANDAEP, e que fez despertar também nas centenas de participantes a ideia de que apenas com sentido colaborativo a educação pode evoluir e acompanhar a mudança que se prevê para os próximos tempos.

António Nóvoa considera que esta é uma fase "onde se vive a maior experimentação de sempre na educação, mas que acaba por acontecer de modo selvagem, espontâneo e onde os aspetos negativos são mais que os positivos", isto porque, nas palavras do atual embaixador de Portugal junto da UNESCO, "a grande parte dos aspetos que discutimos hoje como maus, não são problemas de hoje. Eles apenas foram mais revelados e acelerados pela pandemia", considerando ainda que este é o fim de uma era e o começo de outra, mesmo que "não sabendo bem o que aí vem, o fundamental é identificar como não queremos que seja".

E para esse princípio de organização de pensamento, António Nóvoa descreveu as três lições ou tendências (todas anteriores à pandemia) que, no seu ver, se devem tirar do Covid-19: em primeiro lugar a tendência da digitalização da escola, defendida pelos futuristas da educação que, no limite, faz com que os professores sejam transformados no que a OCDE chamou, num recente documento, “os professores micro-ondas”. Estes futuristas preveem o fim da escola como a conhecemos, devido à utilização do digital e da inteligência artificial para o futuro dos ambiente escolares, somando ainda a este tema que tal "não significa que não se coloque o digital num patamar importante. Não podemos é permitir a utilização de uma visão exclusivamente digital".

O papel do professor como apenas um moderador no ensino por via digital merece de António Nóvoa o alerta: "Se isto acontecer, é o fim da escola! O perigo é que esta é uma ideia que muitos alimentam e que temos de combater. Esta atitude e a personalização da aprendizagem são o caminho para o fim da capacidade de criar e do conhecimento comum", afirmou. Na visão de António Nóvoa este não é um futuro desejável para a educação.

Profissionais dos conhecimentos

A segunda tendência – di-lo com ironia - é a domesticação da educação, ou seja, o regresso da escola à esfera doméstica – esta domesticação da educação tem um efeito negativo, pois retira as crianças do seu lugar comum e não valoriza as formas de aprendizagem que vão além da escola. "Deixo até um exemplo engraçado para percebermos como esta pandemia potenciou a mudança: no Brasil perguntaram a uma criança o que ela mudava nestes tempos de ensino em casa. E ela respondeu que queria voltar a ser aluna de uma professora e não aluna da mãe. Acho que isto é revelador", sublinhou o orador. António Nóvoa também não deseja esta tendência.

A terceira tendência, que se vem acentuando desde 2016, é a valorização dos professores, cuja força e atuação se destacou sobremaneira durante a pandemia, no meio da desorganização estatal. Para sublinhar a relevância desta última tendência, António Nóvoa socorreu-se de Alain Bouvier, que afirmou que “"em França foram os professores que salvaram a escola durante o confinamento". Temos de reconhecer a dificuldade que se exigiu aos docentes durante esta pandemia. Mas esta é também uma janela de oportunidade que pode abrir espaço para políticas públicas de maior reconhecimento da carreira docente. E hoje que se celebra o Dia Mundial do Professor, vamos ter esperança para o futuro".

Pra António Nóvoa, a questão dos professores como tutores é uma situação diminuidora da profissionalidade docente e exige de todos nós “uma mudança na escola para um novo ambiente educativo. E é nesta mudança que se deve repensar a escola para o pós-COVID, sendo esta uma discussão que se torna cada vez mais urgente. O orador deixou aqui três ideias: primeiro: os professores são profissionais do conhecimento, ou dos conhecimentos, e das diversas formas do saber; segundo: necessitamos da dimensão da colaboração, dentro e fora das escolas, de uma cultura profissional colaborativa, aprofundando a autonomia da liberdade; terceiro: a cidadania e o compromisso social são centrais, assim como a capacidade de participação e de decisão. A capacidade de participação não pode ser afastada da capacidade de decidir. Sem isso nas escolas, essa autonomia não existe". António Nóvoa remata: “É esta a profissão docente que precisamos de conquistar”.

Que papel têm os professores nas políticas públicas de educação? Para se reinventar a escola, insiste o orador, são precisos professores com conhecimento, acrescentando que isso implica mudanças na formação inicial e na entrada da profissão, pois segundo a UNESCO faltam 69 milhões de professores no mundo e essas alterações podiam tornar a profissão mais atrativa.

Repensar os ambientes educativos

Álvaro Almeida dos Santos e João Dias da Silva partilharam dos receios de António Nóvoa relativamente à digitalização e ao risco da aplicação do professor como mero moderador de tecnologias, com o SG da FNE a partilhar da opinião de que "aproveitar os melhores de cada geração para serem professores é aquilo que não vemos acontecer. Temos um corpo docente envelhecido e a profissão docente é pouco atrativa. E sim, temos necessidade de fazer mudanças na formação inicial e também na contínua. Sem dúvida que para evitar os males futuros, temos de ser atores nos processos de mudança - já no presente", sublinhou.

A tudo isto, António Nóvoa acrescentou que "renovação e formação são o tema central, pois sem isso não há mudança. Se a escola for um espaço de mudança, atrai jovens. Há um debate a fazer e que se estende às universidades pois muita gente se queixa que ali não se passa nada, que o ensino não é estimulante. Temos de reconquistar esse lugar criativo que era a escola". A liberdade de experiências é o foco principal do antigo reitor da Universidade de Lisboa, que diz ainda não confiar na legislação, preferindo a mudança às reformas.

João Dias da Silva criticou ainda as burocracias criadas pelo governo e que não permitem que os professores se tornem profissionais do conhecimento, nem que sejam colaborativos, como perspetiva António Nóvoa. E no seguimento dos aspetos negativos que assombram o presente, Nóvoa revelou que num documento da União de Bancos Suíços, publicado recentemente, "se dizia que a escola não é importante para aprender, mas sim para ficar com as crianças quando os pais vão trabalhar. Fiquei atónito! Se é para isto, então não quero escolas no futuro. Se o ensino vai centrar-se no que acontece dentro de uma sala de aula, não vale a pena pensar em cenários colaborativos. Estes cenários só acontecem em ambientes educativos que o permitam. É como lançar crianças e pedir coisas que aquele ambiente não permite”.

“A isto”, prossegue António Nóvoa, “junta-se a questão dos programas e orientações que devem ser cada vez mais reduzidas, de forma que permitam a autonomia dos docentes. Isto são ideias que já vêm de 1930. É tempo de repensar os ambientes educativos, na reorganização da sala de aula, da escola, dos currículos, do trabalho dos alunos".

A fechar, e em tom de desafio positivo, João Dias da Silva registou a disponibilidade de António Nóvoa para os combates que a educação tem pela frente, com mudanças que são essenciais, em nome da valorização de uma carreira docente reconhecida, empenhada, participante e responsável.

Voltar ao topo