Maria da Graça Carvalho, na Conferência de Braga: Temos que criar um ecossistema de inovação em Portugal
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Maria da Graça Carvalho, na Conferência de Braga: Temos que criar um ecossistema de inovação em Portugal

Transformar a informação em conhecimento, aproveitar melhor os recursos humanos nas necessidades do país, mais ensino superior na coesão social e territorial e universidades mais ligadas às regiões foram as principais propostas dos conferencistas Rui Estrada (Universidade Fernando Pessoa) e Maria da Graça Carvalho (membro da Unidade Aconselhamento Científico da Comissão Europeia), na oitava e penúltima conferência do Ciclo de Conferências 2018 - Educação e Formação para um desenvolvimento sem desigualdades, que decorreu no dia 12 de janeiro, no Altice FORUM Braga, nesta cidade, em mais uma parceria da FNE, UGT, CEFOSAP, ISCTE-IUL e Universidade Pessoa.

A sessão de abertura esteve a cargo de João Dias da Silva (Secretário-Geral da FNE) e Carlos Silva (Secretário-Geral da UGT), que enalteceram a organização deste ciclo de conferências, sublinhando o seu contributo para um virar de página na política educativa nacional. O Secretário-Geral da FNE deu as boas vindas aos oitenta participantes, frisando que “a oferta de educação é geralmente associada a preocupações de emprego e economia, mas tem que ser sempre olhada com a preocupação de equidade”.

João Dias da Silva afirmou que os tempos não têm sido fáceis para docentes e não docentes, e que para termos uma educação de qualidade é preciso motivar e valorizar todos os trabalhadores da educação. Para um desenvolvimento sem desigualdades, acentuou que os contextos são muito importantes e que a escola pode fazer a diferença numa educação e formação com equidade. “No final deste ciclo de conferências”, explicou, “entregaremos um documento ao Ministério da Educação sobre a perceção da sociedade para a garantia de previsibilidade e qualidade do sistema educativo”.

Carlos Silva, Secretário-Geral da UGT, começou por recordar a falta de 811 assistentes operacionais nas escolas, e perguntou quem pode garantir uma sociedade sem desigualdades se não tivermos serviços públicos de excelência? A saúde é importante, notou, mas a Educação é fundamental. Para o Secretário-Geral da UGT se o fator trabalho é desvalorizado por muitos ele tem que ser reconhecido pelo Estado. E hoje não desistir “é uma maneira de reivindicar a cidadania e a própria Democracia”.

 

A crise da evidência e  o politicamente correto 

Coube a Rui Estrada a primeira conferência, subordinada ao tema A educação e a cidadania crítica no contexto adverso da crise da evidência e do politicamente correto. Para este Professor da Universidade Fernando Pessoa há dois obstáculos e contrariedades com quais se debate hoje a Educação, Formação e Cidadania, em sentido geral: uma crise da evidência (numa perspetiva política mais à direita) e uma paranóia do politicamente correto (numa perspetiva política mais à esquerda).

“Tivemos no passado um problema de acesso à informação, que era só para uma elite. Hoje temos um problema de sobreinformação, com o qual só uma elite consegue lidar”, realçou. Desta sobreinformação resultam as fake news, pelo que em Educação e Formação temos que nos preocupar com o regresso à evidência.

Rui Estrada enfatiza que a recusa da evidência está a tornar o mundo “desigual e perigoso, e a comunidade educativa confronta-se com esta questão nas escolas”. A recusa da evidência é uma atitude que desvaloriza o conhecimento, os factos, pondo, por isso, em questão e em risco a educação e a inteligibilidade, enquanto pilares fundamentais de uma sociedade racional, livre e justa. Quanto ao politicamente correto, a consequência mais grave é sermos confrontados com uma higienização e depuração discursiva tais que levam, em último grau, à morte do pensamento crítico, indispensável à sempre controvertida dinâmica cultural e civilizacional.

Maria Graça Moura (FNE/SPZN), Fátima Oliveira (UGT-Braga) e António Nunes (Universidade Fernando Pessoa) comentaram a conferência de Rui Estrada, concordando com a sua análise e com a necessidade de todos os profissionais da educação terem acesso a formação, para estarem preparados para cumprir uma missão educativa cada vez mais exigente.

António Nunes referiu que o homem constrói-se como ser humano, mas que estamos a perder o pé, pois encontramo-nos todos no mesmo patamar de informação, mas não de conhecimento. Para este professor, nos últimos 20, 30 anos, principalmente depois de Roberto Carneiro, há uma grande tragédia na sistematização da formação de professores. Outra questão é que não estamos preparados para ouvir coisas ofensivas: “Nós escolhemos as nossas comunidades, mas temos que aprender a lidar com outros num espaço societário, de quem não gostamos”, afirmou António Nunes. “Discutir é difícil e a escola tem que ter espaços em que a comunicação seja uma permanência”.

No espaço de debate, Rui Leandro Maia, da Universidade Fernando Pessoa, notou que a escola não está a pensar devidamente como transformar a informação em conhecimento. Rui Estrada finalizou referindo que temos um acesso desmedido à informação e que inflacionamos a tecnologia, o que nos retira muita da nossa capacidade humana de refletir: “A reflexão é o que caracteriza os seres humanos. Filtrar a informação é o papel dos educadores. E isto é um problema de cidadania crítica, não só de educação”.     


Mais coesão social e territorial 

Depois de um curto intervalo, seguiu-se a conferência de Maria da Graça Carvalho, ex-Ministra do Ensino Superior, sobre Os principais desafios dos sistemas de ensino superior, ciência e inovação em Portugal, ou seja do conhecimento como um todo. A conferencista dividiu a sua conferência em três partes: desafios, o que há que fazer e quais as medidas necessárias.

A primeira reflexão de fundo foi a de que temos um sistema muito centralista, muito dependente da Administração Pública, mas também do Governo. A segunda reflexão foi sobre a necessidade de todas as instituições se terem que adaptar aos dias de hoje. Esta evolução deve seguir em duas vias paralelas: com técnicos especializados e com um outro perfil de cursos que preparem para a mudança e para a flexibilidade.

Outro ponto com muito trabalho pela frente é vermos a função da educação, do ensino superior e da ciência como motores de desenvolvimento da economia e da sociedade. Temos cursos muito bons em várias áreas e pessoas de excelente qualidade, mas em Portugal o conhecimento fica muito confinado ao local onde é produzido e tem muita dificuldade em passar para a economia e para a sociedade. Ou então sai para fora de Portugal e não é usado e comercializado no nosso país. Para mudarmos esta situação, refere Maria da Graça Carvalho, temos que criar um ecossistema de inovação, favorável ao investimento estrangeiro e nacional.

Outra questão é que a distribuição não é muito lógica, pois temos recursos científicos, mas não no sítio mais adequado. “Temos que saber casar na causa pública os jovens e investigadores (muitos deles doutorados) com as necessidades reais do país, seja nas agências, nas Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional, seja na administração local, regional e nacional. Isto iria ajudar o emprego científico, que tem que ser visto de forma sustentável”.

Na valorização do conhecimento há uma terceira área que mencionar: a sociedade local. Para Maria da Graça Carvalho temos muito a fazer aqui, ou seja em melhorar a ligação das instituições universitárias às regiões onde estão sedeadas. O Campus, a cidade e a sociedade têm que estar muito próximas e oferecer formações e graus académicos a todo o tipo de estudantes, incluindo os estudantes trabalhadores, de quem muito precisamos: “Lá fora, as pessoas estão em constantes formações, graus, em constante desenvolvimento e atualização”.

 “Há algo que não está bem”, salienta a ex-Ministra “e a questão do acesso tem que ser modificada com percursos flexíveis para quem vem do ensino profissional. No nosso país, a mãe com ensino superior tem uma grande influência no sucesso escolar dos filhos. Isto é bom, mas deve haver igualdade de oportunidade de sucesso”. Mais equidade significa mais diversificação.

A coesão territorial é de igual modo essencial, por exemplo as instituições do interior criarem  parcerias com grau duplo com universidades de outros países. Na internacionalização temos feito muito, mas podemos ir mais longe na aceitação do número de estudantes. Porém, temos  que rever a questão do modelo de investimento com estudantes estrangeiros e com a CPLP, para aumentarmos as formas de colaboração.

Maria da Graça Carvalho frisa que para todas estas políticas é necessário apoiar mais o ensino superior sob diversas formas, como por exemplo na atualização do Estatuto da Carreira Docente, numa maior flexibilidade do RJIES (Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior), que trata todas de modo muito igual, numa contratação mais simples, na renovação dos quadros das instituições ou em mais investimento público e privado. A conferencista também defendeu que só com um sistema de qualidade de excelência é que conseguimos a ascensão social dos nossos jovens e que aqueles que não podem contribuir com o pagamento de propinas devem ter direito a uma ação social justa, que inclua mais residências para estudantes.

A terminar, e para um maior retorno de equidade social, defendeu um acréscimo de investimento nas áreas da infância e declarou perentoriamente que para as mudanças que precisamos é necessária uma nova Lei de Bases do Sistema Educativo.

Comentando esta segunda conferência, Alexandre Dias (UGT-Braga) sublinhou que a desigualdade social privilegia um determinado grupo social e que temos que dar oportunidade a todas as famílias, não esquecendo as minorias étnicas. Para ele, há duas alternativas para muitos jovens, que são a vitimização ou o contrapoder, sendo a ignorância e incompetência  mais custosas que a igualdade e equidade no sistema educativo.

Por seu lado, António Jorge Pinto (FNE/SPZN) realçou as questões de falta de coesão social e territorial e Rui Leandro Maia subscreveria para um programa de governação as linhas orientadores apresentadas por Maria da Graça Carvalho: “Precisamos de um sentido único para todo o ensino e de elevar a Ciência a todas as escolas desde tenra idade”, afirmou. Maria da Graça Carvalho rematou referindo que precisamos de uma transição mais suave entre o ensino não superior e o superior e que um setor económico débil como o nosso dificulta um bom inter-relacionamento entre Ensino Superior e Ciência e a Sociedade: “Não podemos ter duas realidades completamente diferentes entre a Ciência e investigadores e as necessidades da nossa sociedade”.

Na sessão de encerramento, César Campos (Presidente da UGT-Braga) referiu que a intervenção política nas desigualdades em Portugal tem sido muito insuficiente e que as autarquias têm apoiado fortemente as atividades escolares. Lucinda Manuela Dâmaso (Presidente da UGT) frisou, pela sua parte, que este ciclo de conferências nos ajudará a ultrapassar melhor as desigualdades na educação e formação no nosso país e o Presidente da Câmara de Braga, Ricardo Rio, salientou que estamos todos juntos neste combate pela equidade, não podendo desperdiçar os recursos que temos no financiamento do ensino superior. Ricardo Rio rematou sublinhando que as autarquias estão muito comprometidas com a melhoria de acesso à educação, mas rejeitam servir de bode expiatório do Estado central.

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