Paulo Dias, na EDUsummit 2022:  Aprender em rede é o maior desafio para a educação digital
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Paulo Dias, na EDUsummit 2022: Aprender em rede é o maior desafio para a educação digital

Foi em ambiente híbrido que, nos dias 30 de setembro e um de outubro de 2022, decorreu a segunda edição da EDUsummit, promovida pela Federação Nacional da Educação (FNE), a Universidade Aberta (UAb) e a Associação para a Formação e Investigação em Educação e Trabalho (AFIET), este ano sob o lema "Pensar a Educação: que experiências, tendências e desafios na Era Digital?”.

Depois do sucesso da edição anterior, a EDUsummit 2022 reuniu presencialmente oradores convidados de elevado relevo, ligados a várias áreas e setores da sociedade portuguesa, tais como académicos, investigadores, educadores e professores, diretores, responsáveis por projetos escolares e outros especialistas que, com o seu contributo e a sua reflexão no âmbito da educação, suscitaram um debate alargado a uma multiplicidade de perspetivas.

A sessão de abertura ficou a cargo de João Dias da Silva, Secretário-Geral (SG) da FNE, José das Candeias Sales, Vice-Reitor da UAb para o Ensino, Formação e Organização Académica e Pedro Barreiros, Vice-Presidente da AFIET, que saudaram o trabalho de articulação realizado pelas organizações envolvidas, assim como o papel da EDUsummit na promoção no âmbito da formação contínua de docentes.

A EDUsummit 2022 começou com uma Masterclass sobre o tema "O Currículo: tendências e desafios da Era Digital", que contou com o Professor Catedrático José Augusto Pacheco, da Universidade do Minho, como orador principal e Marta Abelha e Ana Patrícia Almeida, da UAb na moderação.

José Augusto Pacheco trouxe à audiência a necessidade de reconfigurar o currículo para a era digital na educação, pois a escola "mesmo na mudança não deixará de se focar na aprendizagem. O ensino é sempre o foco principal". A utilização das tecnologias nas escolas, antes e depois da pandemia deixou uma marca que refletiu a importância do presencial que, "como sabemos, promove a inclusão e a equidade".

O orador analisou depois a revolução do algoritmo no currículo e no modelo educacional, revolução essa que permite regular os modelos educacionais para moldar os alunos a determinada aprendizagem. "Estamos no mundo digital. Mas que conhecimento e aprendizagem está na base deste digital? É preciso criar uma bússola da aprendizagem, que permita ao aluno investigar aquilo que mais precisa e garantir que a qualidade dessa aprendizagem não seja só para alguns”.

José Augusto Pacheco enfatizou que devemos procurar uma escola no futuro que não coloque em causa a ideia de mundo e que dê resposta aos problemas locais para os alunos: “Por isso, a escola não pode perder a parte humanista e crítica que possui".

Colocar a tecnologia ao serviço da pedagogia

O primeiro dia da EDUsummit fechou com a Mesa Redonda “O Desenho do Currículo: experiências em curso nas escolas”. Com moderação de José Ricardo Coelho, Vice-Secretário-Geral da FNE, e Joaquim Santos, da AFIET, a primeira intervenção ficou a cargo de Sandra Galante, do Agrupamento de Escolas (AE) de Condeixa-a-Nova, que mostrou como a pandemia obrigou à criação de ambientes mistos, mas que mantêm a escola no papel principal.

O AE de Condeixa, com 12 escolas e mais de 1900 alunos, oferece na procura por esse equilíbrio "oficinas de capacitação digital e mais oferta formativa. Procuramos obter resultados, dados com que fazemos a capacitação e alteramos a perceção da aula normal. A aula pode ser virtual, digital, mas até no físico podemos usar o digital". A docente defendeu ainda que "os alunos têm de ser ativados cognitivamente e aí deixam de ser leitores para serem criadores de conteúdos".

A palavra passou para João Paulo Leonardo, Diretor do AE Passos Manuel, em Lisboa, que mostrou às centenas de participantes que acompanhavam online o que tinha sido realizado na sua escola a nível de digital. João Paulo Leonardo referiu de que forma têm dado seguimento à estratégia digital, os pontos positivos, mas também as dificuldades. A inclusão, a autonomia do currículo, que seguem uma estratégia nacional para a cidadania e avaliação pedagógica dos alunos são passos dados atualmente, mas "a pandemia, as dificuldades económicas, o isolamento físico, as assimetrias no acesso ao digital, a guerra são problemas com muitos".

Para o Diretor do AE Passos Manuel, "precisamos de infraestruturas preparadas para a era digital, velocidade de internet adaptada e criar academias digitais". Como positivo no pós-covid recordou "as reuniões virtuais, o uso de plataformas várias para trabalhos, mais formação de professores e maior partilha de conteúdos para suporte de aulas", destacando o projeto UBBU de programação computacional em crianças do 1º ciclo.

Idalina Lourido Santos, do CFAE Aurélio da Paz Reis – Gaia Sul e Espinho fechou o primeiro dia da EDUsummit. A oradora deixou na sua apresentação uma ideia incontornável e partilhada em todo o evento: "a sociedade digital é algo incontornável". De seguida, apresentou os passos e resultados de um "questionário selfie" sobre a escola, respondido por vários elementos do ambiente escolar, em anonimato. A análise de dados dos resultados, junto de equipas das escolas, permitiu ao Plano de Ação de Desenvolvimento Digital da Escola (PADDE) criar uma impressão digital de cada escola.

O PADDE serve para dar voz a todos os intervenientes e possui equipas de implementação que vão às escolas para ouvir os problemas e desafios. Idalina Santos reforçou que "estamos numa fase em que temos a oportunidade de aproveitar o melhor de cada um no presencial e no digital. Mas é preciso mais formação, algo que temos desenvolvido com muitos apoios". No momento em que estamos o mais importante é “colocarmos a tecnologia ao serviço da pedagogia".

Um digital amigo da criança

No sábado de um de outubro, a EDUsummit abriu com a Masterclass “Digitalização da Escola: tensões e desafios”, cabendo a Isabel Fialho, da Universidade de Évora, a apresentação de um plano de ação para a transição digital: “Demos conta da existência de falta de competências, de pouca formação, de alguma resistência, mas também de equipamentos insuficientes e um mau acesso à internet".

A COVID-19 acelerou o processo de implementação de um projeto de uma plataforma digital na gestão educacional dos AE em Évora. Isabel Fialho referiu que "os objetivos são identificar como são usadas as plataformas digitais, mapear os efeitos na dinâmica de funcionamento nas escolas e criar um guião de funcionamento". Os resultados desta busca demonstraram que existem dificuldades dos professores, tanto ao nível de docentes, como de liderança de escola, na utilização de algumas plataformas.

Mas permitiu também concluir que 94,5% dos professores utilizam as tecnologias mais do que habitualmente. "O desafio é motivar e capacitar os docentes a melhorar as competências digitais. Depois é preciso saber utilizar essas competências nas aulas, com um trabalho colaborativo quase obrigatório”. Para Isabel Fialho, é preciso dar o melhor uso às ferramentas, pois os dados indicam que existem 50 mil alunos sem acesso à internet em casa. Há ainda um risco de plataformização e burocratização das escolas, que leva a um cansaço extra. Susana Henriques e Cláudia Neves, ambas da UAb, moderaram esta mesa redonda.

Seguiu-se a apresentação do projeto "A escola amiga da criança", por Jorge Ascensão, Membro do Conselho Nacional de Educação, e a professora Raquel Azevedo, do AE Camilo Castelo Branco, de Vila Nova de Famalicão, que assumiram que este projeto já não é apenas da CONFAP, da Leya e de Eduardo Sá. Com esta ideia pretendemos demonstrar que as escolas não são rankings. As escolas são oportunidades e o caminho de cada um é crescermos com partilha.

Jorge Ascenção, ex- Presidente da CONFAP, declarou que este projeto "serve para que as escolas desenvolvam boas práticas e não vivam apenas de notas. É preciso dar tempo às crianças para brincarem. Por isso, este é um projeto com as escolas e não para as escolas". “A escola amiga da criança” demonstra o bom trabalho feito nas escolas portuguesas e como estas devem ser um complemento eficaz da família. Os seus propósitos englobam a motivação para o digital e uma preocupação clara com a sustentabilidade. A apresentação deste projeto contou com a moderação do psicólogo Eduardo Sá, da Universidade de Coimbra e ISPA e ainda de Fernando Caetano, da UAb.

É um erro massificar

A reta final da EDUsummit 2022 contou com mais uma mesa redonda, desta feita dedicada ao tema crucial da "Inovação em contextos educativos". Este espaço interventivo ofereceu aos participantes a apresentação de três projetos diferentes. O primeiro com Paula Lopes, da Universidade Autónoma de Lisboa, a ter as honras de abertura da mesa com o Projeto PICCLE (Plano de Intervenção Cidadãos Competentes em Leitura e Escrita), fruto do Plano Nacional de Leitura (PNL2027), e financiado pelo Programa Operacional Capital Humano (POCH), que tem como principal finalidade disponibilizar um conjunto de meios de informação e comunicação sobre a leitura, a escrita e as literacias em ambiente digital.

O PICCLE visa facilitar a sua integração nos processos de ensino e aprendizagem dos alunos do 3.º ciclo do Ensino Básico e do Ensino Secundário, com "funcionalidades que os professores podem usar nas aulas, tendo em conta o perfil e estratégia para a cidadania". O PICCLE apresenta ainda como objetivo primordial garantir uma literacia digital aos alunos e professores, através de especialistas de várias áreas. Paula Lopes recordou que “este projeto foi avaliado por mais de 300 escolas e mais de mil professores, que nos permitiram criar estudos com ligação à parte académica e perceber quais as plataformas que os professores mais usam e como as usam".

De seguida, Carlos Almeida apresentou o “Projeto Novos Tempos / Aprender (C.M. Almada)”, que pretende mudar práticas nas escolas, mas mantendo o respeito pela identidade de cada uma. O objetivo passa por "melhorar os resultados de todos, assumir uma maior inclusão e mudar práticas pedagógicas na sala de aula. Além disso temos também ideias com nova organização do tempo escolar e nova dinâmica de avaliação da aprendizagem".

Criado e implementado em 2019, o projeto vê agora os primeiros resultados, não esquecendo outros objetivos que passam pelo desenvolvimento profissional, do trabalho colaborativo entre colegas docentes de várias escolas dos AE de Almada, mas acima de tudo ouvir a voz de alunos, docentes e pais. Após a avaliação destes três anos, ficou definido que um dos fatores a desenvolver no futuro passa pela aposta na multiculturalidade, promovendo um bem-estar integrado.

Marco Bento, Professor na ESE de Coimbra, trouxe à EDUsummit o "Projeto Super Tabi" nas escolas do concelho da Maia, de que é coordenador. Pegando no papel da pedagogia interligada com a integração tecnológica, Marco Bento começou por deixar o recado de que: “há mais de um século que se fala em mudar a escola e nunca se esteve tão próximo disso. Não basta usar as tecnologias. Tem de haver equilíbrio entre presencial e digital e o papel do professor faz toda a diferença".

Seguindo no tema da integração tecnológica, Marco Bento foi ao encontro de outras questões que atormentam o futuro da educação como as questões relacionadas com o envelhecimento dos professores e a necessidade de envolver os docentes nesta integração, acrescentando um dado curioso: “os professores com mais idade são aqueles que mais usam a tecnologia”.

Para se alcançar uma integração maior, a sala de aula tem de permitir vários ambientes e há que se adaptar os processos de avaliação. Sobretudo ouvindo quem está no terreno. Para Marco Bento é um erro massificar. Os alunos têm cada vez mais de se preparar para várias profissões e isso passa também por uma maior participação das famílias. Susana Henriques (UAb) e Rui Maia (FNE), foram os moderadores desta mesa redonda.

Incluir o modelo digital no presencial

A última masterclass da EDUsummit centrou-se nos "Desafios da Educação na Transição Digital" e teve no Professor Paulo Dias, antigo reitor da UAb, o orador convidado. "Aprender em rede é o maior desafio para a educação digital. E a pandemia trouxe a construção de muitas redes que criaram novos desafios na educação". Depois há que personalizar a educação em rede. Como?: "através do acolhimento na comunidade, da criação e inovação e da criação de ambientes emergentes que vão promover a mudança.

Paulo Dias recordou que 60% das crianças de hoje vão trabalhar em profissões que ainda nem existem". Por isso, "são precisos novos contextos orientados para aprender a responder a problemas", o que pode passar por contributos em rede de uma identidade partilhada, na busca de soluções. Neste ponto, "há vários erros que se cometem. As universidades, por exemplo, fecham-se em si mesmas. É preciso mudar isso e precisamos incluir o modelo digital no presencial. Essa deve ser uma nova normalidade".

Paulo Dias considerou ainda que "temos de criar proximidade virtual. A mudança tem início na forma como acolhemos os participantes na nossa rede. Com interação desenvolvo redes de aprendizagens. E alcançamos a soberania do conhecimento que apenas se atinge com a globalização". Ao fechar a sua intervenção, o ex-Reitor da UAb sublinhou que "a escola e o currículo têm de se ir adaptando, com flexibilidade. E com formação, pois sem ela seremos ignorantes. É pegar nos dados e transformá-los em conhecimento".

O encerramento deste evento coube ao professor Luís Alberto Marques Alves (Universidade do Porto), que apresentou, tal como na primeira edição, com brilhantismo, as conclusões desta segunda edição da EDUsummit. Mereceram destaque na sua análise as grandes questões levantadas ao longo das cerca de 15 horas de debates e apresentações, resumidas no tema integrador da EDUsummit “Pensar a Educação: que experiências, tendências e desafios na Era Digital?”, fortemente reconhecidas pelos participantes no Bate-Papo da plataforma.

O professor inscreveu as suas conclusões em três níveis da “arqueologia do saber: um espaço macro, meso e micro educativo, percorrendo, com mestria, as questões relacionadas com o Currículo e desenho curricular, a digitalização da escola ou a literacia digital e, finalmente, os projetos desenvolvidos e concretizados em contexto escolar. Acompanharam-no na mesa Ana Patrícia Almeida, da Universidade Aberta, e Joaquim Santos, da AFIET.

João Dias da Silva, José das Candeias Sales e Pedro Barreiros encerraram o evento, em nome de toda a organização.

Fotos: Catarina Moscoso - SPZN

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