Monitor da Educação e Formação 2025 confirma alertas da FNE: progressos estatísticos não escondem fragilidades estruturais do sistema educativo

12-2-2026

Monitor da Educação e Formação 2025 confirma alertas da FNE: progressos estatísticos não escondem fragilidades estruturais do sistema educativo
A divulgação do Monitor da Educação e da Formação 2025 – Portugal confirma aquilo que a FNE tem vindo a alertar de forma persistente: apesar de alguns progressos registados em indicadores como a redução do abandono escolar precoce e o aumento do número de diplomados do ensino superior, o sistema educativo português continua a enfrentar fragilidades estruturais profundas que exigem respostas políticas consistentes, negociadas e sustentadas no tempo.

Os dados evidenciam um quadro preocupante ao nível das competências básicas. Quase um terço dos alunos de 15 anos não atinge o nível mínimo de proficiência em matemática e Portugal registou resultados particularmente negativos no TIMSS, ficando em último lugar entre os países da União Europeia participantes no 8.º ano. Estes resultados não podem ser desligados da crescente escassez de professores, da sobrecarga burocrática e da instabilidade profissional que continuam a marcar a carreira docente.

A FNE sublinha que nenhum sistema educativo pode melhorar resultados se não garantir condições de trabalho dignas, estabilidade nas escolas e valorização efetiva da profissão docente. A carência de professores qualificados, incluindo na educação especial, é hoje um dos fatores mais críticos para a qualidade e equidade do sistema. O recurso crescente a profissionais sem habilitação pedagógica adequada representa um risco sério para a consistência das aprendizagens e para a coesão do sistema.

Também ao nível da educação de adultos, o relatório confirma um défice estrutural de qualificações, com 39% da população entre os 15 e os 64 anos com níveis de escolaridade até ao 9.º ano. A participação em aprendizagem ao longo da vida mantém-se abaixo da média europeia e longe das metas definidas. Estes dados revelam a necessidade de uma estratégia integrada que articule políticas educativas, sociais e de emprego.

No ensino profissional e nas áreas CTEM, apesar dos investimentos previstos, persistem desequilíbrios, nomeadamente na sub-representação feminina e no desajustamento entre oferta formativa e necessidades do mercado de trabalho. A FNE considera que qualquer reforma ou reorganização do sistema deve ser construída em diálogo efetivo com os profissionais e com as organizações sindicais, garantindo estabilidade, qualidade pedagógica e valorização das carreiras.
 
Para a FNE, o Monitor reforça uma conclusão inequívoca: sem professores valorizados, respeitados e com condições de trabalho adequadas, não haverá melhoria sustentável dos resultados educativos. 

É inegável que Portugal registou progressos relevantes na redução do abandono escolar, no aumento da qualificação superior e no investimento na modernização do ensino e da formação profissional. Contudo, estes avanços coexistem com fragilidades estruturais persistentes, designadamente ao nível das competências básicas, em especial na matemática, das qualificações da população adulta, das desigualdades educativas e da escassez de docentes, bem como no necessário alinhamento entre formação e mercado de trabalho. 

Só uma política educativa integrada, que coloque os profissionais no centro das decisões e assegure estabilidade, valorização e qualidade, permitirá transformar progressos estatísticos em melhorias reais e duradouras no sistema educativo.

A Federação Nacional da Educação - FNE continuará a defender uma política educativa que coloque os profissionais no centro das decisões, assegure as melhores condições de trabalho, valorize a carreira e as remunerações, promova o rejuvenescimento da profissão e reforce a autonomia profissional, sempre com o objetivo de garantir uma escola pública de qualidade, inclusiva e socialmente justa.


Porto, 12 de fevereiro de 2026

A Comissão Executiva
Federação Nacional da Educação - FNE

www.fne.pt



ANEXO
– Resumo dos principais dados relativos a Portugal
Relatório "Education and Training Monitor 2025 – versão portuguesa
 
ANEXO

Resumo dos principais dados relativos a Portugal

Indicadores

• Educação na primeira infância (3 anos até início da escolaridade obrigatória): 94,2% (2023), ligeiramente abaixo da média da UE (94,6%), mas acima dos 88,7% registados em 2015.
Abandono precoce da educação e formação (18-24 anos): 6,6% (2024), melhoria significativa face a 13,5% em 2015 e abaixo da meta europeia.
Diplomados do ensino superior (25-34 anos): 43,2% (2024), próximo da média da UE (44,1%) e em crescimento sustentado desde 2015 (33,2%).
Participação de adultos em aprendizagem (25-64 anos): 33,4% (2022), abaixo da média da UE (39,5%) e aquém da meta europeia de 60%.

Ensino das CTEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática)

• 28,9% dos estudantes do ensino superior estavam inscritos em áreas CTEM (2023), acima da média da UE (26,9%), mas abaixo da meta proposta (32%).
• Forte concentração na engenharia (68,5% das inscrições CTEM).
Sub-representação feminina: 31,3% nas áreas CTEM; apenas 18,4% nas TIC.
• Apenas 2,2% dos doutorandos estão em TIC (UE: 3,8%).
• No ensino profissional (EFP), 30,5% das matrículas são em áreas CTEM (UE: 36,3%).
• Forte investimento do PRR: 710 milhões de euros para modernização do EFP e criação de Centros Tecnológicos Especializados.

Ensino escolar e competências básicas

• Fraco desempenho a Matemática (PISA 2022): 29,7% dos alunos não atingem o nível mínimo (UE: 29,5%).
• Queda acentuada nos alunos com elevado desempenho.
• TIMSS 2023: Portugal ficou em último lugar entre os países da UE participantes em matemática e ciências (8.º ano).
• Desigualdades socioeconómicas marcadas: apenas 16% dos alunos desfavorecidos atingem bom desempenho.
• Competências digitais: 37% dos alunos do 8.º ano têm baixo desempenho (melhor que média UE de 43%, mas longe da meta <15%).
• Escassez significativa de professores, incluindo na educação especial.
• Investimento de 454 milhões de euros na requalificação de 77 escolas.
 
Ensino e Formação Profissionais (EFP)

• 38,7% dos alunos do secundário frequentam vias profissionalizantes.
• 77,8% dos diplomados de EFP tiveram aprendizagem em contexto de trabalho (UE: 65,2%).
• Taxa de emprego dos diplomados EFP: 75,5% (UE: 80%).
• Reforma em curso do Catálogo Nacional de Qualificações (até 2026).
• Forte financiamento europeu (PRR e FSE+).

Ensino Superior

• Crescimento consistente do número de estudantes (428 206 inscritos em 2023).
• Desigualdades regionais significativas (22,3% de diplomados nos Açores vs. 53,1% na Área Metropolitana de Lisboa).
• Introdução de prémio salarial para recém-diplomados.
• Mobilidade internacional: 10,2% (ligeiramente abaixo da média UE de 11%).

Educação e competências de adultos

• 39% da população (15-64 anos) tem escolaridade até ao 9.º ano (UE: 24,2%).
• Resultados muito fracos no PIAAC (literacia, numeracia e resolução de problemas).
• Programa Qualifica e PRR investem fortemente na qualificação de adultos.
• Dificuldade persistente em envolver adultos pouco qualificados e populações vulneráveis.



Relatório 
"Education and Training Monitor 2025”
versão portuguesa
https://fne.pt/uploads/documentos/documento_1770902681_4631.pdf