O problema não é a falta de professores. É a falta de valorização!

17-3-2026

O problema não é a falta de professores. É a falta de valorização!

Fala-se, com razão, da falta de professores como um dos maiores desafios do sistema educativo português. É um problema real, crescente e complexo, que afeta escolas, alunos e famílias em todo o país. Mas talvez esteja na altura de dizer, com clareza, aquilo que muitos evitam assumir: a falta de professores não é a causa, é a consequência.

 

Durante anos, acumulou-se um conjunto de decisões políticas que foram desvalorizando a profissão docente. Congelamentos de carreira, progressões bloqueadas, avaliação excessivamente burocratizada, perda de poder de compra e ausência de reconhecimento social foram criando um cenário de desgaste profundo. Ser professor deixou de ser, para muitos jovens, uma escolha atrativa e passou a ser, para demasiados, uma profissão marcada pelo desgaste emocional e físico.


A escola pública continua a assentar no compromisso, na resiliência e no sentido de missão de milhares de docentes. Mas não há sistema que resista indefinidamente à erosão das suas bases humanas. Quando se exige cada vez mais e se oferece cada vez menos, o resultado é inevitável: desmotivação, abandono e dificuldade em atrair novas gerações.


A falta de professores, que hoje se sente em várias áreas disciplinares e regiões do país, não surgiu de um dia para o outro. É o resultado de anos de desinvestimento na carreira docente. É o reflexo de uma profissão que foi perdendo prestígio, estabilidade e previsibilidade. É a consequência de políticas que olharam para os professores mais como um custo a conter do que como um pilar essencial do desenvolvimento do país.


Importa, por isso, recentrar o debate. Não basta discutir medidas de emergência para colmatar horários por preencher ou soluções avulsas para tapar falhas imediatas. O verdadeiro desafio é estrutural e exige coragem política.


Valorizar a carreira docente não é um slogan, é uma condição essencial para garantir o futuro da escola pública. Significa assegurar progressões justas e previsíveis, eliminar bloqueios artificiais, reconhecer todo o tempo de serviço, reduzir a burocracia que asfixia o trabalho pedagógico e devolver dignidade às condições de exercício da profissão. Significa também garantir uma remuneração compatível com a responsabilidade social que os professores assumem todos os dias.


Mas valorizar é também reconhecer. É devolver prestígio social à profissão, reforçar a autoridade pedagógica e afirmar, sem ambiguidades, que ensinar é uma das funções mais exigentes e decisivas de qualquer sociedade.


Não haverá solução sustentável para a falta de professores sem uma mudança clara de rumo. E essa mudança depende de escolhas políticas que coloquem a educação no centro das prioridades e que entendam que investir nos professores é investir no futuro coletivo.


O problema, afinal, não é apenas a falta de professores. É a falta de valorização que a provocou. E é essa que tem, agora, de ser resolvida com urgência, seriedade e visão.

 

Quem ensina merece mais.

 

Porto, 17 de março de 2026
 

Pedro Barreiros
Secretário-Geral da FNE

 


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