Entre o Progresso e o Descontrolo: uma responsabilidade coletiva da Educação

5-1-2026

Entre o Progresso e o Descontrolo: uma responsabilidade coletiva da Educação

A Federação Nacional da Educação (FNE) acompanha com crescente preocupação o contexto mundial que atravessamos. Vivemos um tempo paradoxal, marcado simultaneamente por avanços tecnológicos sem precedentes e por um agravamento evidente das tensões sociais, económicas, ambientais e geopolíticas. Nunca houve tantos recursos, tanto conhecimento acumulado e tanta capacidade de inovação; nunca, porém, foi tão generalizado o sentimento de instabilidade, incerteza e perda de referências.

Este cenário tem impactos profundos não apenas na educação, mas em toda a sociedade moderna. As implicações que se começam a desenhar para as próximas gerações são, em muitos aspetos, inquietantes e exigem uma reflexão séria, informada e responsável. A educação, enquanto pilar estruturante da democracia, da coesão social e do desenvolvimento sustentável, não pode ficar à margem deste debate.

As escolas são hoje o espelho de um mundo em aceleração permanente. Sentem-se as pressões constantes para responder a mudanças rápidas, a imposição de soluções tecnológicas sem o devido enquadramento pedagógico, a desvalorização do tempo necessário para aprender, refletir e consolidar saberes. A tecnologia entrou, legitimamente, nas salas de aula, mas muitas vezes sem o acompanhamento ético, humano e organizacional indispensável.

A FNE não é, nem nunca foi, contra a inovação tecnológica. Pelo contrário, reconhece o seu enorme potencial ao serviço da aprendizagem, da inclusão e da democratização do conhecimento. Contudo, alerta para os riscos de um progresso tecnológico desregulado, que avance mais depressa do que a capacidade de reflexão coletiva e de definição de limites claros. Quando a inovação deixa de servir o ser humano e passa a condicioná-lo, estamos perante um problema que não pode ser ignorado.

Ideias que até há pouco tempo pertenciam ao domínio da ficção científica, como a possibilidade de implantar chips no cérebro humano, a fusão entre inteligência artificial e cognição biológica ou a monitorização permanente de comportamentos e decisões, começam a ser discutidas como cenários plausíveis. O que verdadeiramente preocupa não é a existência destas propostas, mas a aparente passividade com que a sociedade e o poder político as observam. Uma reação tardia poderá ter consequências irreversíveis.

A história demonstra que os grandes desequilíbrios não surgem de forma abrupta. Constroem-se gradualmente, alimentados pela indiferença, pela normalização do inaceitável e pela ausência de debate público sério e informado. Por isso, a FNE considera urgente promover a discussão, o questionamento e a participação ativa da comunidade educativa e da sociedade em geral. Depois de debater e feito o diagnóstico, é necessário decidir.

Decidir que modelo de sociedade queremos construir. Decidir até onde estamos dispostos a ir em nome da eficiência, do controlo ou da competitividade. Decidir quais são as linhas éticas que não podem ser ultrapassadas sem comprometer valores fundamentais como a dignidade humana, a liberdade, a privacidade, a equidade e a justiça social.

Neste contexto, o papel dos educadores é central e insubstituível. Os docentes e os profissionais da educação não são meros executores de programas ou transmissores de conteúdos. São formadores de cidadãos, construtores de pensamento crítico e agentes de transformação social. Cabe-lhes preparar as novas gerações para compreender o mundo, mas também para o questionar; para utilizar a tecnologia de forma consciente, crítica e responsável, e não para se submeterem passivamente a ela.

A FNE defende uma educação humanista, assente no desenvolvimento integral da pessoa, na promoção da ética, da empatia, da participação democrática e da responsabilidade coletiva. Uma educação que valorize o tempo de aprender e de ensinar, o diálogo, a reflexão, a criatividade e o pensamento crítico. Uma educação que não abdique do seu papel regulador e orientador num mundo em rápida transformação.

Manter equilíbrios, paz, prosperidade, boas condições de vida e bem-estar não é apenas um desafio tecnológico ou económico. É, sobretudo, um desafio político, social e educativo. Exige investimento sério na educação, respeito pelos profissionais do setor e a colocação das políticas educativas no centro das decisões estratégicas do país.

Neste sentido, importa aproveitar o atual contexto para negociar, de forma séria e responsável, um Estatuto da Carreira Docente que responda às exigências do presente e aos desafios do futuro, bem como para concretizar outras alterações estruturais que valorizem, de forma efetiva, os principais atores do nosso sistema educativo. Sem professores reconhecidos, respeitados e devidamente valorizados, e sem que lhes sejam asseguradas condições de trabalho dignas, estabilidade profissional e tempo para ensinar e educar, será impossível enfrentar com sucesso os enormes desafios que se colocam à educação e à sociedade. Não há políticas educativas eficazes sem professores motivados, nem futuro sustentável sem uma profissão docente forte e socialmente reconhecida.

O futuro ainda não está escrito. Está a ser construído, todos os dias, pelas escolhas que fazemos e também pelas que adiamos. Para a FNE, a indiferença não é uma opção. O debate é urgente, a reflexão é indispensável e a tomada de decisões responsáveis é inadiável, em nome das gerações presentes e futuras.


Porto, 5 de janeiro de 2026

 
Pedro Barreiros
Secretário-Geral da FNE


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