12-8-2026
Quando pensamos em 2031, podemos ser tentados a imaginar um futuro ainda distante, quase como se estivéssemos a fazer um exercício de futurologia. Mas 2031 está já ali. Daqui a apenas cinco anos.
É muito provável que nessa altura continuemos a ter escolas, salas de aula, professores, horários e disciplinas. A escola não vai desaparecer, nem acredito que os professores venham a ser substituídos por máquinas, como por vezes alguns discursos mais alarmistas parecem querer fazer crer. Mas estou convencido de que muita coisa vai mudar. E talvez as mudanças mais importantes sejam precisamente aquelas que não veremos imediatamente.
Vai mudar, certamente, a forma como ensinamos e como os alunos aprendem. Vai mudar a forma como avaliamos. Vai mudar a maneira como preparamos uma aula, como procuramos e tratamos informação e, inevitavelmente, vai também mudar uma parte importante daquilo que significa ser professor. Na verdade, esta transformação já começou.
Em 2024, 37% dos professores do 3.º ciclo dos países abrangidos pelo TALIS já utilizavam Inteligência Artificial no seu trabalho e 57% consideravam que estas ferramentas os ajudavam na preparação das aulas. São números que nos mostram que não estamos a falar de uma realidade que um dia chegará às escolas. Ela já chegou.
Mas há uma questão que não podemos ignorar. Como tem alertado a OCDE, fazer melhor ou mais depressa uma determinada tarefa com recurso à Inteligência Artificial não significa necessariamente aprender mais ou aprender melhor. Podemos produzir um texto melhor, encontrar uma resposta mais rapidamente ou resolver um problema em menos tempo e, ainda assim, não termos aprendido verdadeiramente aquilo que estava em causa. É aqui que entra, uma vez mais, o papel insubstituível do professor.
A tecnologia pode ajudar. Pode libertar tempo. Pode apoiar a preparação das aulas, facilitar tarefas administrativas, permitir novas formas de acompanhar os alunos e abrir possibilidades que hoje ainda estamos a começar a descobrir. Mas será sempre necessário alguém que dê sentido pedagógico a essas ferramentas, que faça perguntas, que estimule a curiosidade, que ensine a duvidar, a confrontar informação e a pensar.
E se a Escola vai mudar, também o sindicalismo terá de mudar.
Seria contraditório defendermos que a Escola se deve preparar para uma sociedade diferente e, ao mesmo tempo, imaginarmos que as organizações sindicais podem continuar a funcionar exatamente da mesma maneira.
Também aqui a Inteligência Artificial pode ser uma oportunidade. Pode ajudar-nos a analisar legislação, preparar processos negociais, tratar grandes quantidades de informação, identificar problemas, conhecer melhor as preocupações dos profissionais da Educação, comunicar de forma mais eficaz e responder mais rapidamente aos nossos associados. Devemos utilizar essas possibilidades. Não faria sentido recusá-las.
Mas devemos fazê-lo sem perder aquilo que dá sentido ao sindicalismo e que nenhuma tecnologia conseguirá substituir: a proximidade entre pessoas, a confiança, a solidariedade, a representação coletiva, a capacidade de negociar e, quando necessário, de mobilizar.
Modernizar os instrumentos sem abandonar os valores. Talvez seja esta uma das melhores formas de resumir o desafio que também o movimento sindical tem pela frente. Porque 2031 não está assim tão longe.
Muitos dos alunos que estarão na Escola de 2031 já estão hoje sentados nas nossas salas de aula. E uma grande parte dos professores e dos restantes profissionais que trabalharão nessa escola são precisamente aqueles que hoje representamos.
É por isso que não podemos esperar por 2031 para começar a pensar a Escola de 2031. Essa discussão tem de começar agora.
Temos de discutir o currículo e perceber o que continuará a ser essencial aprender num mundo onde qualquer pessoa terá acesso imediato a quantidades quase ilimitadas de informação. Temos de repensar a avaliação, porque será cada vez mais difícil avaliar apenas o resultado final sem perceber o percurso que levou até ele. Temos de investir seriamente na formação dos professores e dos restantes profissionais da Educação. Temos de discutir a organização e os tempos de trabalho, a proteção dos dados, a ética, a igualdade no acesso às tecnologias e também os limites que queremos estabelecer à automatização. E esta última questão parece-me particularmente importante.
Não queremos uma Escola que tenha medo da tecnologia. Uma escola fechada à inovação estaria a preparar os alunos para um mundo que já deixou de existir. Mas também não queremos uma Escola governada pela tecnologia.
Queremos uma Escola que saiba utilizar as melhores ferramentas disponíveis sem perder de vista a razão pela qual existe: educar pessoas livres, autónomas, informadas, solidárias e capazes de pensar pela sua própria cabeça.
Talvez seja esse um dos grandes paradoxos do nosso tempo. Quanto mais poderosas se tornam as máquinas, maior é a nossa responsabilidade em valorizar aquilo que nos torna humanos.
A capacidade de pensar criticamente. De criar. De imaginar. De cooperar. De compreender o outro. De tomar decisões. De assumir responsabilidades. De distinguir aquilo que é tecnicamente possível daquilo que é social, ética e humanamente desejável.
Por isso, acredito que o verdadeiro desafio da Escola de 2031 não será competir com a Inteligência Artificial. Será ensinar a viver, a aprender, a trabalhar e, sobretudo, a ser humano num mundo em que a Inteligência Artificial estará presente em quase tudo o que fazemos.
E há uma última ideia que importa não esquecer: esse futuro ainda não está escrito.
A Escola de 2031 será também aquilo que nós formos capazes de fazer dela. Pelas decisões que tomarmos hoje, pelas escolhas que fizermos, pelos limites que soubermos estabelecer e pelos valores que tivermos a coragem de defender.
Enquanto profissionais da Educação e enquanto movimento sindical, não podemos limitar-nos a assistir à mudança.
Temos de participar na sua construção.
Porto, 12 de agosto de 2026
Pedro Barreiros
Secretário-Geral
Federação Nacional da Educação
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